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Ponto final

Ponto final

19
Ago25

É daqui que escreve

Ohh.do.Carmo

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"Escrevo da terra das feias, para as feias, as velhas, as machonas, as frígidas, as malfodidas, as infodíveis, as histéricas, as taradas, todas as excluídas do grande mercado das gajas boas. E começo por aqui para que as coisas sejam claras: não peço desculpa de nada, não me venho lamentar. Não troco o meu lugar com ninguém, porque ser Virginie Despentes parece-me uma tarefa mais interessante de cumprir do que qualquer outra.

Acho óptimo que haja também mulheres que gostam de seduzir, que sabem seduzir, outras arranjar marido, mulheres que cheiram a sexo e outras a bolo do lanche das crianças que saem da escola. E óptimo que haja umas muito meigas, outras esfuziantes na sua feminilidade, que haja mulheres jovens, muito belas, outras vaidosas e flamantes. A sério que fico contente por todas aquelas a quem as coisas tal como são convêm. Isto sem a mais pequena ironia. Acontece, porém, que não me integro nesse grupo.

(...)

Estou contente comigo assim como sou, mais desejosa do que desejável. Escrevo, pois, daqui, da terra das que ficaram por vender, das malfeitonas, das que têm cabeça rapada, das que não se sabem vestir, das que têm medo de cheirar mal, das que têm os dentes podres, das desajeitadonas, das que os homens não poupam (...) das mulheres rudes, barulhentas, das que arrasam tudo à sua passagem, das que não gostam de perfumarias, das que põem um blush demasiado vermelho, das que são demasiado malfeitas para poderem enfarpelar-se como engatatonas mas que morrem de vontade de o fazer, das que querem usar roupa de homem e barba na rua, das que querem mostrar tudo, das que são pudicas por complexo, das que não sabem dizer não, das que são fechadas para serem submetidas, das que metem medo, das que metem pena, das que não fazem inveja, das que têm a pele flácida e rugas por todo o rosto, das que sonham com fazer um lifting, fazer uma lipoaspiração ou partir o nariz para o refazer mas que não têm dinheiro para isso, das que já não se parecem com nada, das que só contam consigo próprias para se protegerem, das que não sabem dar segurança, das que não querem saber dos filhos, das que gostam de beber até rebolarem no chão dos bares, das que não sabem como proceder; tal como, ao mesmo tempo, para os homens que não têm vontade de ser protectores, os que o queriam ser mas que não sabem como, os que não sabem lutar, os que choramingam por tudo e por nada, os que não são ambiciosos, nem competitivos, nem bem dotados, nem agressivos, os que são medrosos, tímidos, vulneráveis, os que prefeririam tratar da casa em vez de ir trabalhar, os que são delicados, calvos, demasiado pobres para agradar, os que têm vontade de levar no cu, os que não querem que contemos com eles, os que têm medo de ficar sozinhos à noite."

Virginie Despentes, Teoria King Kong, Orfeu Negro

12
Ago25

Atirar ao lado

Ohh.do.Carmo

 

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"(...)
É preciso estar atento. Certas canções despertam em nós a vontade de uma história que já aconteceu mas que não vai acontecer mais. Algumas histórias têm a duração exata de uma música rock, outras se dividem em cantos. No intervalo dá para comprar pipocas. Poucas pessoas contaram as riscas de uma zebra, mas todos os que o fizeram regressaram diferentes. O alvo de um humano está no terceiro olho e um dia algué vai explicar para você como afagar ele e onde ele fica. Nunca aponte ao terceiro olho, com aquilo é só cuidados. Algumas vezes vão te empurrar e você vai empurrar de volta, provavelmente vai até querer pegar uma pedra para jogar no peito de quem te feriu. Isso não está certo, mas é humano. Quase tudo o que é humano é justo, não deixe que ninguém te diga o contrário - só não vale enfiar o dedo no tal olho porque isso é igual a matar. (...)

Segure-se. Faça por polir seu riso, principalmente ao entardecer. Afine diariamente a pontaria e reze para que nunca seja necessário o disparo. Não existe proteção melhor do que a consciência de que podemos decidir atirar ao lado. (...)

Saiba também, querido, que muitas vezes a sombra de um desenho é bem mais bonita do que o desenho que está à vista. É preciso estar atento, e descobrir o bichinho que se mexe debaixo da folhagem. Não o mate: se cubra de flores e entre para brincar com ele."

Matilde Campilho, "A primeira hora em que o filho do sol brincou com chumbinhos", jóquei, Tinta da China

17
Fev25

Estar maduro de mais

Ohh.do.Carmo

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"um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento. a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico. a repreensão contínua passa por essa esperança imbecil de que amanhã estejamos mais espertos quando, pelas leis mais definidoras da vida, devemos só perder capacidades. a esperança que se deposita na criança tem de ser inversa à que se nos dirige. e quando eu fico bloqueado, tão irritado com isso sem dúvida, não é por estar imaturo e esperar vir a ser melhor, é por estar maduro de mais e ir como que apodrecendo, igual aos frutos. nós sabemos que erramos e sabemos que, na distracção cada vez maior, na perda de reflexos e de agilidade mental, fazemos coisas sem saber e não as fazemos por estupidez. fazemos por descoordenação entre o que está certo e o que nos parece certo e até sabemos que isso de certo ou errado é muito relativo. é tudo mais forte que nós."

Valter Hugo Mãe in a máquina de fazer espanhóis, Porto Editora, 19ª edição setembro 2016
Fotografia de Nicholas Nixon

02
Fev25

O importante

Ohh.do.Carmo

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(...) "Você se transformou numa máquina de dar aulas. Numa máquina de dar explicações. Numa máquina de ei, já pedi silêncio. Numa máquina de ei, preste atenção. Uma máquina de não pode ir ao banheiro agora. Numa máquina de paciência para não espancar aqueles alunos que não querem saber nada de orações subordinadas. Mas escola foi feita para isso. Foi feita para aborrecer os alunos. E você sabe que é parte dessa chateação. A cada turma que você entra, a cada hora gasta da sua vida, você vai sentindo que está no lugar errado. Precisa de ser honesto consigo mesmo: você não sabe como se tornou professor. A maioria das coisas importantes na sua vida parecem ter acontecido alheias à sua vontade. (...)

(...)

Quando você morre, quando seu coração para, não importa o que você fez com sua vida, não importa quantos planos você deixou para trás, quantas pessoas você magoou, quantas te magoaram, quantas vezes você perdeu ou ganhou. Importa apenas o que estava fazendo no momento da sua morte. "

Jefferson Tenório, O avesso da Pele, 2021 Companhia das Letras
Fotografia de Nicholas Nixon tirada por mim na exposição até 16 fevereiro em Cascais

17
Nov24

Aterrar fora da rota

Ohh.do.Carmo

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"É difícil dizer quantas pessoas cumpriram à risca planos rígidos de ocupações, quantas ganham a vida a fazer o que realmente queriam. Quantas conseguiram um dia dizer - foi sempre isto que sonhei e foi para isto que me preparei, que estudei sem uma dúvida.

Profissões de missão, fortes como chamamentos. Poucas. O mais usual é os ofícios acontecerem, cruzamentos de acasos, de oportunidades que se desdenham e outras, inesperadas, que empurram noutras direcções. Nem mesmo os diplomas amarram ninguém. Não falta gente que tirou um curso e aterrou fora da rota. Médicos que preferem ser escritores. Engenheiros que seguem para a política. Arquitectos que fundam agências de publicidade. 
A lista é infindável, e dela faz parte José Paulo Azeredo, que largou a toga de procurador no auge, para descer à investigação policial e sentir-se finalmente realizado.
Nunca, nem por um segundo, Benilda sonhou ir para a cozinha de uma tasca, perdida no calor e fumo e suor e fritos e gorduras e cebolas.
E no entanto. Devia ter adivinhado, se se guiava tanto por sinais como diziam. Devia ter adivinhado que muitas vezes estamos já dentro do futuro sem nos darmos conta. Talvez os mortos a pudessem ter avisado. Que o gesto que estamos a fazer hoje será o que um dia nos definirá uma e outra vez, até nos tornarmos o que fazemos, se não temos cuidado."

Rodrigo Guedes de Carvalho, Matarás Um Culpado e Dois Inocentes, D. Quixote, 1ª edição outubro 2024

09
Out24

Nascer velha

Ohh.do.Carmo

"Escrevo com as mãos atadas. Na concretude imóvel do meu quarto, de onde não saio há longo tempo. Escrevo sem poder escrever e: por isso escrevo. De resto, não saberia o que fazer com este corpo que, desde a sua chegada ao mundo, não consegue sair do lugar. Porque eu já nasci velha, numa cadeira de rodas, com as pernas enguiçadas, os braços ressequidos. Nasci com cheiro de terra úmida, o bafo de tempos antigos sobre o meu dorso. Por mais estanho que isso possa parecer, a verdade é que nasci com os pés na cova. Não falo na aparência física, mas de um peso que carrego nas costas, um peso que me endurece os ombros e me torce o pescoço, que me deixa dias a fio - às vezes um, dois meses - com a cabeça no mesmo lugar. 
Um peso que não é de todo meu, pois já nasci com ele. Como se toda a vez em que digo "eu" estivesse dizendo "nós". Nunca falo sozinha, falo sempre na companhia desse sopro que me segue desde o primeiro dia.
Um sopro que me paralisa. Uma espécie de fardo. Pesado. Mais do que isso: bruto, acimentado, capaz de me tirar todas as possibilidades de movimento, amarrando as articulações uma à outra, colando todos os espaços vazios do meu corpo. Não que eu seja uma pessoa triste. Não se trata de ser ou não ser feliz, mas de uma herança que trago comigo e da qual quero me livrar. Nem que para isso tenha de correr riscos sem medida, nem que para isso tenha de me desfazer de tudo o que construí até hoje, de tudo o que acreditei ser a minha vida. Estou num ponto em que preciso mudar a direcção do barco, ou então serei capturada pelo olhar de Medusa e me tornarei pedra, lançada ao mar.
No entanto, as palavras ainda me escapam, a história ainda não existe. Enquanto os músculos pesam e permanecem, o sentido se esvai. Quem sabe aos poucos, quando conseguir dar os primeiros passos, quando conseguir me libertar do fardo, não consiga também dar nome às coisas? E por isso, só por isso escrevo". 

Tatiana Salem Levy, A chave de casa, Edições Cotovia, Lisboa 2007

25
Jul24

Construir um refúgio

Ohh.do.Carmo

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"Lucien é um peso, um fardo a que ela tem dificuldade em se habituar. Adèle não consegue descobrir onde se esconde o amor ao filho, no meio dos seus sentimentos confusos: pânico por ter de o confiar a terceiros, irritação por ter de o vestir, exaustão por subir uma rua íngreme com o carrinho recalcitrante. O amor está lá, ela não duvida disso. Um amor mal esclarecido, vítima do quotidiano. Um amor que não tem tempo para si próprio.
Adèle fez um filho pela mesma razão por que se casou. Para se encaixar no mundo e se proteger de quaisquer diferenças em relação aos outros. Ao tornar- se esposa e mãe, adquiriu uma aura de respeitabilidade que ninguém lhe pode tirar. Construiu um refúgio para as noites de angústia e um recesso confortável para os dias de deboche."

Leïla Slimani in No Jardim do Ogre, Alfaguara, maio de 2018

12
Jul24

Não vamos atravessar a porta

Ohh.do.Carmo

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" A minha mãe nunca despiu o luto e nunca voltou a casar-se. Apenas consentiu em vestir-se de outro modo de vez em quando: uma saia com flores brancas sobre um fundo negro, uma blusa de um azul-escuro quase impossível de distinguir. Não lhe faltaram homens, mais do que um fez o caminho da aldeia para lhe vir falar à porta do pátio, mas ela espantava-os gritando se não tinham vergonha de rondar uma viúva que se mantinha enlutada. Nenhum deles atravessou a porta. Ela só havia tido um homem, mas fora suficiente. Quando estamos sozinhas e somos pobres, não nos podemos dar ao luxo de aprender a mesma lição duas vezes, nesta casa também sabemos isto muito bem.

Desde aquela noite em que assentou os tijolos e a argamassa, a minha mãe soube que as sombras a tinham invadido. Já não as ouvia apenas atrás dos cortinados ou do outro lado das portas, mas também dentro do peito, no fundo das entranhas. Quando encostava o ouvido à minha barriga, ouvia-as também dentro de mim. Sabia que aquilo cresceria dentro de nós, que se enredaria nas nossas vísceras e que não as conseguiríamos arrancar. Tudo tem um preço, e esse foi o preço que a minha mãe teve de pagar."

Layla Martínez in Caruncho, Antígona

30
Jun24

Espantar a memória

Ohh.do.Carmo

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"Mortos, vestidos com aquela roupa de vivos.
Mortos que doem, que dão pertença, que deixaram impressa
a alma do seu olhar. Mortos a rir. Morta a rapariga
cujo perfume ainda hoje passou na multidão.
E um morto, trágico, por ter ouvido mal e ter julgado,
até ao fim, que alguém não lhe dissera: És importante porque existes.

E vivos, mais incertos que os mortos.
De uns a cara quase apaguei. Outros vê-los-ei sempre,
vestindo a roupa de uma idade em que fomos próximos.
De outros desconfio e rondam, de perfil, num limiar mais frio.
E todo o corpo das mulheres que conheci; e o rosto das que desejei.
E raros, a quem sozinho falo, e por vezes respondem.

Passa-se tanto tempo longe dos vivos, mais que dos mortos.

Vivos e mortos, sopeso-vos na memória. Com esforço
recrio-vos, para horas solitárias, a esta luz antiga.
Conhecemo-nos bem demais. Avançamos pouco, lentamente.
No nosso elenco já tudo pedia que entrasse alguém
com seduções diferentes, uma cara estrangeira.
Ainda que tarde ou cedo viesse unir-se à nossa monotonia.
O odor de alguém me baralhasse os hábitos, me excitasse
os líquidos; uma cara minha me espantasse a cara,
sentisse o passado inovado por ti, já nem tivesse roupa
que quisesse usar, fosse para onde já não me lembro ter lados."

Hugo Neto, Elenco in Segmento, Deriva Editores, novembro 2013
Fotografia de uma fotografia de Eduardo Gageiro - exposição Factum que esteve patente no Torretão Nascente da Cordoaria Nacional até 05/05/2024

28
Jun24

Ainda não é (nossa) hora

Ohh.do.Carmo

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" quando recuperei os sentidos percebi que estava vivo. perceber assim que se está vivo é coisa de funda alteração. além de perder o tino, roga-se ao céu perdão, lamenta-se e fica-se a saber que deus não quer que morramos. não era a nossa hora, ainda merecíamos, e eu sabia o que isso significava, ficar mais tempo vivo era merecer.

(...)

pensei também que um homem bater numa mulher era algo porco, o mais porco dos actos, porque vinha da covardia e mostrava o espírito demente de quem achava na violência uma força aceitável. e pensei no meu pai a roncar pelos campos fora, mordido de estupidez, sem nunca mais perceber o caminho de volta, tornado bicho, odioso, nunca mais o meu pai, nunca mais um homem, apenas uma desgraça pelas opções erradas que tomara. faltou-me o meu pai. faltou-me muito o meu pai. "

valter hugo mãe, o nosso reino, Alfaguara, março 2011

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