É daqui que escreve

"Escrevo da terra das feias, para as feias, as velhas, as machonas, as frígidas, as malfodidas, as infodíveis, as histéricas, as taradas, todas as excluídas do grande mercado das gajas boas. E começo por aqui para que as coisas sejam claras: não peço desculpa de nada, não me venho lamentar. Não troco o meu lugar com ninguém, porque ser Virginie Despentes parece-me uma tarefa mais interessante de cumprir do que qualquer outra.
Acho óptimo que haja também mulheres que gostam de seduzir, que sabem seduzir, outras arranjar marido, mulheres que cheiram a sexo e outras a bolo do lanche das crianças que saem da escola. E óptimo que haja umas muito meigas, outras esfuziantes na sua feminilidade, que haja mulheres jovens, muito belas, outras vaidosas e flamantes. A sério que fico contente por todas aquelas a quem as coisas tal como são convêm. Isto sem a mais pequena ironia. Acontece, porém, que não me integro nesse grupo.
(...)
Estou contente comigo assim como sou, mais desejosa do que desejável. Escrevo, pois, daqui, da terra das que ficaram por vender, das malfeitonas, das que têm cabeça rapada, das que não se sabem vestir, das que têm medo de cheirar mal, das que têm os dentes podres, das desajeitadonas, das que os homens não poupam (...) das mulheres rudes, barulhentas, das que arrasam tudo à sua passagem, das que não gostam de perfumarias, das que põem um blush demasiado vermelho, das que são demasiado malfeitas para poderem enfarpelar-se como engatatonas mas que morrem de vontade de o fazer, das que querem usar roupa de homem e barba na rua, das que querem mostrar tudo, das que são pudicas por complexo, das que não sabem dizer não, das que são fechadas para serem submetidas, das que metem medo, das que metem pena, das que não fazem inveja, das que têm a pele flácida e rugas por todo o rosto, das que sonham com fazer um lifting, fazer uma lipoaspiração ou partir o nariz para o refazer mas que não têm dinheiro para isso, das que já não se parecem com nada, das que só contam consigo próprias para se protegerem, das que não sabem dar segurança, das que não querem saber dos filhos, das que gostam de beber até rebolarem no chão dos bares, das que não sabem como proceder; tal como, ao mesmo tempo, para os homens que não têm vontade de ser protectores, os que o queriam ser mas que não sabem como, os que não sabem lutar, os que choramingam por tudo e por nada, os que não são ambiciosos, nem competitivos, nem bem dotados, nem agressivos, os que são medrosos, tímidos, vulneráveis, os que prefeririam tratar da casa em vez de ir trabalhar, os que são delicados, calvos, demasiado pobres para agradar, os que têm vontade de levar no cu, os que não querem que contemos com eles, os que têm medo de ficar sozinhos à noite."
Virginie Despentes, Teoria King Kong, Orfeu Negro








